Uma Pandemia Distópica é o meu terceiro livro, totalmente escrito durante a pandemia da COVID-19 (2020–2023). As consequências desse evento biológico pandêmico foram catastróficas, não somente pelas vidas perdidas, mas também pelo imenso impacto negativo observado em todos os segmentos de uma sociedade moderna — sociais, econômicos, políticos e culturais. Não ficou pedra sobre pedra. As estruturas emocionais foram abaladas, as fronteiras do universo interior individual foram fechadas. Ficamos perplexos e introspectivos, imaginando que estávamos vivendo o epílogo da espécie humana. Havia, então, um silêncio projetado pelo medo, visível no semblante de todos nós — e não poderia ser diferente comigo. O mundo inteiro estava em transe, sem saber exatamente que futuro poderíamos esperar.Aqui no Brasil, além de tudo que mencionei acima, ainda vivíamos sob a égide de um governo completamente aloprado, desconexo com a realidade, anacrônico, negacionista, fascista, medíocre, insensível, incompetente e desprezível. Poderia continuar descrevendo aquele governo sórdido, utilizando diversos outros adjetivos, mas não haveria espaço para isso. Prefiro, então, seguir na minha explanação sobre o ambiente adverso que vivemos naqueles momentos, e que foi responsável pela minha inspiração para escrever este livro. É possível perceber, sem sombra de dúvidas, que o conteúdo dos textos foi criado sob a profunda influência de um ambiente distópico. O Brasil não enfrentava apenas as agruras de uma das piores pandemias da história da humanidade, mas também precisava lidar com as maldades e imbecilidades de um governo que contribuía, cada vez mais e de forma sistemática, para os efeitos mortais e a letalidade do vírus SARS-CoV-2.Com a alma devastada pelas mortes de pessoas queridas e por tudo o que a pandemia causava ao redor do mundo, eu ainda precisava, junto à minha esposa, manter o equilíbrio em casa, onde dois adolescentes enfrentavam surtos psicóticos e desvios comportamentais. Além disso, havia também a preocupação com a integridade emocional e a saúde física dos meus pais — dois idosos com mais de 80 anos. Era difícil trabalhar, interagir com as pessoas. Os problemas vinham e iam, num mar de incertezas. As adversidades traziam desgostos, dissabores, conflitos — quase tudo era adverso. Mas continuávamos tentando seguir em frente, na esperança de que tudo pudesse ser resolvido. Nesse dia a dia, dentro de uma complexidade de sentimentos — insegurança, medo, fadiga física e mental —, eu sempre procurava um momento de introspecção para tentar escrever. Era uma tentativa de relatar aquele momento, mas também de extravasar minha dor interna, meu mal-estar, o desconforto que, em alguns momentos, me levava para um lugar desconhecido, silencioso, imaculado, harmonioso, de cor alva. Ali, numa mistura de letras, palavras, frases e parágrafos, eu podia me conectar com outra dimensão e organizar minhas ideias para descrever meus sentimentos e contar a história das avalanches de acontecimentos vividos.Posso dizer, portanto, que Uma Pandemia Distópica é um livro construído a partir de uma coletânea de textos com forte viés da pandemia da COVID-19. Os textos — em prosa ou poesia — foram fluindo, dissipando-se no ar das angústias que estavam impregnadas em nossas almas, em nossos lares, no nosso trabalho. Os escritos, assim, trouxeram conteúdos icônicos para o momento, tais como: "A Percepção de um Sonho", "Guerra da Estupidez", "Nada a Comemorar", "Milícia Digital de Boçais", "Tantas Lágrimas", "Uma Nação em Desconstrução" e "Meio Milhão de Faces Roubadas". No total, são 41 textos que se distribuem ao longo do livro, sendo que a maioria apresenta um conteúdo visceral e triste, fruto de uma realidade verdadeiramente assustadora e sombria, agravada por um cenário social e político degradado.